O que diferencia experiência de acumulação de tempo?

Por Tomas Belviera

O fundador e management do Grupo Valore+, Alfredo Moreira Filho, percorreu ao longo de décadas uma trajetória que passou por regiões, setores e funções radicalmente diferentes entre si, tipo de percurso que força uma questão que raramente é feita de forma explícita: o que transforma anos de carreira em experiência real, em vez de simples acumulação de tempo no mesmo padrão de atividade.

Tempo e experiência não são a mesma coisa

Um profissional que passou 20 anos fazendo o mesmo tipo de trabalho no mesmo contexto tem 20 anos de carreira. Tem também um repertório muito profundo sobre aquele contexto específico e provavelmente muito limitado fora dele. A profundidade não é descartável, mas também não é o mesmo que a capacidade de lidar com situações novas, ambíguas ou fora do padrão que aqueles 20 anos consolidaram.

A experiência que se transfere para situações novas é diferente da expertise que se aprofunda em situações conhecidas. A primeira se desenvolve em contextos variados, onde o profissional é forçado a questionar premissas que em outro ambiente seriam óbvias, a adaptar métodos que em outro contexto funcionariam sem ajuste e a construir soluções para problemas que nunca haviam aparecido antes de uma forma exatamente igual.

O que força o desenvolvimento de experiência real?

Experiência real se desenvolve quando o ambiente impõe situações que o repertório disponível não consegue resolver de forma direta. Quando isso acontece repetidamente em contextos diferentes, o profissional desenvolve não apenas soluções para aqueles problemas específicos, mas uma capacidade mais geral de enfrentar problemas novos que os anos em um único contexto raramente constroem.

Alfredo Moreira Filho, ao longo de uma trajetória que incluiu extensão rural no Amazonas, projetos de colonização no Pará, atuação em empresa de construção pesada e fundação de negócio próprio de gestão, foi exposto repetidamente a esse tipo de situação, em que o repertório disponível não era suficiente e precisava ser expandido ou reformulado para que o trabalho avançasse.

A diferença entre quem mudou de contexto e quem não mudou

Profissionais que permaneceram em um único contexto ao longo de toda a carreira tendem a ter julgamento muito confiável sobre situações que se assemelham ao que já viram antes e julgamento menos confiável sobre situações genuinamente novas. Profissionais com trajetória mais variada tendem a ter o inverso: julgamento menos preciso sobre cada contexto específico, mas mais robusto diante de situações sem precedente claro.

A questão não é qual dos dois perfis é melhor, mas qual é mais adequado para o tipo de desafio que a função exige. Em ambientes estáveis e bem mapeados, profundidade de expertise tende a ser mais valiosa. Em ambientes de mudança rápida ou de alta complexidade, a capacidade de lidar com o desconhecido tende a ser mais decisiva do que qualquer expertise específica.

Como distinguir experiência de rotina acumulada?

Uma forma prática de distinguir experiência de rotina acumulada é observar o que acontece quando o profissional encontra uma situação genuinamente nova: alguém com experiência real tende a reconhecer o que é diferente, a identificar o que do repertório disponível ainda se aplica e a construir uma abordagem para o que não se aplica. Alguém com rotina acumulada tende a tratar a situação nova como variação de uma situação conhecida, com os problemas previsíveis que essa leitura equivocada produz.

Alfredo Moreira Filho, ao migrar da engenharia agronômica para a gestão de negócios, não apenas acumulou mais um contexto de atuação. Atravessou uma fronteira entre domínios suficientemente diferentes para que o cruzamento forçasse o tipo de questionamento de premissas que gera experiência real, não apenas repertório adicional dentro do mesmo campo, distinção que sua trajetória torna visível de forma concreta.

Por que trajetórias variadas produzem gestores mais adaptáveis?

Gestores com trajetórias variadas tendem a ser mais adaptáveis em ambientes de mudança porque já internalizaram, por meio de experiência repetida, que contextos mudam, que o que funcionava antes pode não funcionar mais e que adaptar o método sem perder o objetivo é habilidade central para qualquer função de gestão que se estenda por tempo suficiente para que o mundo ao redor mude de forma significativa.

A adaptabilidade não é um traço de personalidade fixo. É uma capacidade que se desenvolve por exposição a situações que exigem adaptação. Trajetórias que incluem múltiplas mudanças de contexto, como a de Alfredo Moreira Filho ao longo de décadas, criam mais oportunidades de desenvolver essa capacidade do que trajetórias que se aprofundam em um único ambiente por décadas consecutivas.

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