Um estudo clínico randomizado realizado pelo Departamento de Cirurgia Plástica do Sahlgrenska University Hospital, na Suécia, comparou os resultados de longo prazo de diferentes técnicas de reconstrução mamária tardia após a mastectomia. A pesquisa analisou qualidade de vida relacionada à saúde, necessidade de novas cirurgias e custos diretos e indiretos associados ao tratamento.
O artigo foi publicado on-line em 30 de junho de 2026 no Scandinavian Journal of Surgery e integra o estudo GoBreast. O acompanhamento chegou a até 15 anos, ampliando a avaliação para além do período imediatamente posterior à cirurgia. Segundo o artigo publicado pela SAGE, participaram 100 pacientes, distribuídas em grupos de acordo com o histórico de radioterapia.
Comparação entre técnicas sem radioterapia
Entre as pacientes que não haviam sido submetidas à radioterapia, o estudo comparou a reconstrução em dois estágios com expansor e implante ao retalho toracodorsal associado a implante. O expansor é colocado inicialmente para preparar a região e, em uma etapa posterior, pode ser substituído por uma prótese definitiva.
Nesse grupo, a reconstrução em dois estágios apresentou melhora estatisticamente significativa na qualidade de vida e menor frequência de reoperações durante o acompanhamento. O período médio de observação foi de 12,9 anos. De acordo com os resultados apresentados no estudo, a taxa de novas cirurgias foi aproximadamente metade da registrada entre as pacientes submetidas ao retalho toracodorsal com implante.
A análise de longo prazo é relevante porque algumas complicações ou insatisfações podem surgir anos depois da reconstrução inicial. Ao considerar reoperações acumuladas e a percepção das próprias pacientes sobre sua qualidade de vida, o trabalho oferece uma visão diferente daquela baseada apenas em complicações hospitalares ou no resultado estético dos primeiros meses.
Radioterapia muda o cenário analisado
Para as pacientes que haviam recebido radioterapia, a comparação envolveu o retalho do músculo latíssimo do dorso com implante e o retalho DIEP. Na técnica DIEP, tecido do abdômen é utilizado para formar a mama reconstruída, preservando o músculo abdominal. Já o retalho do latíssimo do dorso utiliza tecido da região das costas e, neste estudo, foi associado a uma prótese.
As pacientes submetidas ao DIEP não registraram reoperações durante o período analisado. No grupo do latíssimo do dorso, por outro lado, houve uma taxa maior de novas cirurgias. Apesar dessa diferença, o subgrupo irradiado tinha apenas 25 participantes. Por isso, as diferenças observadas em qualidade de vida e custos não alcançaram significância estatística e não permitem afirmar que uma técnica seja superior em todos os casos.
O registro do ensaio no ClinicalTrials.gov identifica a pesquisa pelo código NCT03963427. A base informa que o estudo GoBreast foi estruturado para avaliar desfechos de reconstrução mamária tardia, incluindo aspectos clínicos e relacionados à qualidade de vida.
Escolha depende do perfil da paciente
Os resultados não indicam uma técnica universalmente melhor para todas as pessoas que passam por uma reconstrução após o câncer de mama. A decisão pode depender da radioterapia anterior, das condições clínicas, da quantidade e da disponibilidade de tecido, das preferências da paciente e da experiência da equipe responsável pelo procedimento.
A radioterapia é um dos fatores que podem influenciar a escolha porque altera os tecidos da região torácica e pode afetar a cicatrização e a evolução de uma reconstrução com implante. Por esse motivo, a avaliação costuma envolver cirurgiões plásticos, mastologistas, oncologistas e outros profissionais, além de uma conversa individualizada sobre riscos, recuperação e possíveis intervenções futuras.
Limitações e contexto dos custos
O estudo também examinou custos diretos e indiretos relacionados ao tratamento. Esses dados, porém, refletem o sistema de saúde sueco e não devem ser convertidos diretamente para a realidade brasileira. Valores de materiais, cirurgias, internações, afastamentos e acompanhamento podem variar de acordo com o país, o serviço de saúde e as características de cada paciente.
Os autores destacam ainda que a pesquisa foi conduzida em um único centro na Suécia. O tamanho reduzido do grupo irradiado é outra limitação importante, especialmente na comparação entre o DIEP e o retalho do latíssimo do dorso. O registro bibliográfico no PubMed identifica o artigo pelo PMID 42376772.
Assim, a principal contribuição da pesquisa está em mostrar como o horizonte de acompanhamento pode modificar a avaliação das técnicas de reconstrução mamária tardia. Qualidade de vida, reoperações e custos acumulados ajudam a complementar a análise do resultado inicial, mas a escolha do procedimento continua dependendo das características clínicas e das prioridades de cada paciente.


